quarta-feira, 20 de junho de 2012

Auto-retrato na sombra, nº4 (ou "Como quase perdi a sombra")


Hoje quase perdi a minha sombra.

Esta manhã, cheguei ao Jardim das Oliveiras, descalcei os sapatos, guardei as meias dentro dos respectivos sapatos (meia direita no sapato direito, meia esquerda no sapato esquerdo) e plantei os meus pés na relva. Estava eu tranquilamente a apreciar a frescura das pequenas folhas entre os dedos, quando, de repente, tive a sensação de estar a ser observado.

Olhei à minha volta, mas não havia vivalma no jardim. Os únicos olhos visíveis nas proximidades eram os das gaivotas que sobrevoavam o CCB e os das estátuas do Padrão dos Descobrimentos, que estão sempre virados para o rio.

De qualquer forma, não parecia ser aquela sensação que os heróis dos filmes policiais têm quando estão a ser seguidos na rua (vocês sabem qual é: "I think we're beeing followed. Let's shoot the bastard!"). O que estava a sentir era algo mais amplo do que um par de olhos fixados em mim. Era algo que parecia vir de todos os lados e especialmente... de baixo.

De súbito, a relva por baixo dos meus pés começou a aquecer. Primeiro era um calor suave, agradável, mas a temperatura continuou a subir, a subir, a subir e rapidamente parecia que estava na praia a pisar a areia aquecida pelo sol.

Enquanto saltitava no relvado ("ui, ai, ih, ah, ui ui ui ui!") numa tentativa de evitar queimaduras nas plantas dos pés, não me apercebi que a minha sombra tinha ficado para trás. Só quando já estava em aparente segurança pendurado no ramo de uma oliveira é que fiquei com a sensação de me ter esquecido de qualquer coisa ("Terão sido as chaves? Ou o telemóvel? Não, tenho tudo nos bolsos...").

Alguns metros mais atrás, a minha sombra estava presa no que parecia ser uma teia de sombras projectadas por coisa nenhuma. O chão deformava-se em consonância com a teia em resposta aos movimentos aprisionados da minha sombra. Mais à direita, em direcção a esta cena, movia-se uma silhueta de forma indefinida que emitia um som arrepiante, como ramos de uma árvore morta a raspar nas telhas de uma casa abandonada.

Saltei da árvore para o imenso verde escaldante, num movimento digno de um Ninja, e corri em direcção àquela estranha rede de sombras. Como seria de esperar, o meu momento de ninjísse foi rapidamente compensado por um de trapalhice (também conhecida por Manelíce) e estatelei-me ao comprido. Ainda a cuspir relva, voltei a levantar-me entre tropeções e atirei-me para o limiar da teia, numa tentativa de agarrar os pés da minha sombra que esperneava desesperadamente.

A silhueta tenebrosa aproximava-se. Os meus dedos quase conseguiam alcançar a minha sombra, mas a teia tornava os meus braços pesados e incapazes de completar a distância que nos separava. O som arrepiante cada vez mais próximo, mais próximo, mais próximo...

"Só mais um bocadiiiiiinhoooo", gritei enquanto esticava todo o meu corpo mais alguns milímetros.

Nesse derradeiro esforço consegui finalmente tocar-lhe, precisamente no momento em que uma enorme nuvem se atravessou entre o sol e solo. Sem luz, todas as sombras se dissiparam. A minha, a da teia e a silhueta sumiram-se e o silêncio voltou ao jardim.

Quando uma mão cheia de raios de sol voltou a tocar a pele da minha cara, tudo estava como dantes. A relva era fresca. O som era calmo, apenas interrompido pelo barulho dos comboios a passar ali perto. Dos meus pés continuava uma projecção negra de mim próprio, muda e feita só de contornos. Mas agora, na escuridão dessa cópia bidimensional, parecia-me vislumbrar algo escondido, como se houvesse uma fresta microscópica nas fronteiras da minha sombra.



2 comentários:

Brumo Gomas disse...

(era este)
eheheheh,
gostei!
boa-cola,
boa-cola,
uh-uh!

Manuel Moreira disse...

Hehe. Isso podia ser o refrão de uma música dos Taxi.