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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Carreira 23 para Sejalá Ondefôr

Há muitos tempos atrás, num daqueles tempos em que o Casimiro ainda passeava pelas ruas de Lisboa, a carreira 23 da Carris não ia do Desterro para Algés. Nessa altura, ainda não existiam autocarros, só eléctricos, e o 23 era um veículo especial.

Agora, se pararem à beira do rio num dia de nevoeiro, algures entre Alcântara e Belém, é possível que consigam vislumbrar a antiga paragem do 23 no mesmo local onde antes se apanhava o carro eléctrico para a Aerodoca de Almada. Já quase ninguém se lembra, mas a Aerodoca foi, na altura, o maior centro de transportes do país, com perto de uma centena de partidas de Dragão ou Navio Espacial diariamente.

Esse tempo já se foi.

Com ele, foi-se também o velho 23 e o percurso que fazia, mergulhando no rio rumo a Oeste, passando pelas paragens Subtejo 1 e 2, Travessa do Mergulho e Forte de São Lourenço do Bugio, antes de fazer meia volta para Este, levantar voo e aterrar na estação de Orvalho Flutuante. A partir daí, os passageiros tinham de percorrer algumas dezenas de metros em nuvens especialmente preparadas para poderem então chegar à Aerodoca e partirem para locais tão famosos como as cidades perdidas de Sejalá Ondefôr ou Jálátive Manamelembroondié.



terça-feira, 18 de setembro de 2012

"Tem remédio para a Embolia Parlamentar?"

Numa banca na rua, um homem vendia ervas para todas as maleitas.

- Boa tarde. - disse eu - Tem alguma coisa para a Tensão Salarial Baixa?

- Infelizmente não, amigo. Esgotámos há coisa de seis meses e não sabemos quando voltará a haver.

- Ah... Então e para Varizes Governamentais?

- Não.

- Dores Ministeriais?

- Também não...

- Embolia Parlamentar?

- Er... espere só um bocadinho... - E desapareceu por baixo da bancada durante alguns segundos antes de emergir novamente com um ar desapontado - Pois. Também não. Mas olhe que temos um restinho de erva para a Insuficiência Política Crónica.

- Uau! - O meu entusiasmo era tal que, quando dei por mim, estava dar pulinhos no ar e a bater palmas como uma criança prestes a abrir as prendas na noite de Natal. - Ena, ena, ena! Granda pinta! E quanto custa?

- Bom, tendo em conta a actual conjuntura económica, as mordomias do mercado de capitais e as medidas impostas pelo memorando da Troika, o preço da erva para a Insuficiência Política Crónica está nos... - Com uma ligeira pausa no discurso, o vendedor retirou uma enorme calculadora de dentro de um alguidar e continuou - ... ora, deixe cá ver... cinco vezes três... hm... noves fora nada... mais sete porcento... a dividir por 0,7421235996... hmhm... Cá está!

- Então, está nos quê? Quanto é?

- Exactamente 189 mil e 979 milhões de Euros por quilo! - Respondeu, com um sorriso vitorioso.

- Mas... mas isso é o valor da dívida pública portuguesa.

- Ai é? Ah... Pois. Mas olhe que a calculadora não se engana. E então? Quer levar?

- Não, não. Deixe estar. Dê-me antes um saquinho de erva para a azia. Fiquei um bocadinho mal disposto...


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

"Lagarto, lagarto!"

Para terminar este penúltimo dia da série dedicada à Feira Medieval de Castro Marim, aqui ficam fotos de alguns bichos que não esperava encontrar numa reconstituição medieval.

Na primeira foto, podem ver o Sr. Bonifácio Reboliço, lagarto de poucas palavras, mas certo do seu pensamento.

O cavalheiro de verde chama-se Ludovico Lázaro e é um tarado do jogging. Três vezes por dia tem de sair para "dar uma corridinha até ali e já volto".

Esta senhora é a D. Esquivel Cascavel que, apesar de não ser verdadeiramente de origem cascavélica, herdou o apelido de uma avó que mudou de nome após a conclusão trágica de uma história de amor.

Este tipo é fanfarrão e tem a mania de dizer que dá cabo de qualquer um. Diz que se chama Godzilla...


Por fim, apresento-vos D. João Camaleão Q'Só Sabia Dizer Q'Não, antigo monarca de um reino longínquo que foi deposto pelos seus súbditos oprimidos. Um dia destes conto-vos a história.

Além destes personagens, estavam lá também vários tipos de sapos, uma considerável variedade de cobras, tartarugas e aranhas.


A barraca onde os animais estavam expostos tinha dimensões algo reduzidas para o número de pessoas que a frequentavam. Isso não facilitou muito a tarefa de os fotografar (aos animais, não às pessoas, entenda-se. Se bem que algumas pessoas comportavam-se como animais... Mais até do que os próprios... Acho que vi um tipo pendurado numa viga a balançar num só braço enquanto emborcava mais uma caneca de vinho e uivava "Ó Quim! 'nda cá ver! Tá'qui 'ma cobra!" Mas se calhar alucinei.... Enfim, estou a dispersar. Não liguem).

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Uma floresta na água


Fui de férias e deixei o blog pendurado. Ainda por cima com a promessa de um conto... Não se faz!

Mas já estou de volta. Portanto, sem mais adiamentos, aqui fica "Uma floresta na água".


Esta é a história do João, um miúdo que vivia sozinho numa cabana numa floresta no fundo de um vale.

A casa do João tinha sido construída por ele mesmo no centro do vale, junto ao riacho, no ponto em que se encontravam as duas montanhas que o ladeavam. Para evitar as correntes de água que invadiam as margens do riacho em alturas de maior chuva, o João construiu a sua cabana no cimo da árvore mais antiga do vale, um velho carvalho tão velho, tão velho que já era velho quando os tetra-tetravós dos velhos da região ainda eram tão novos quanto o João.

Ninguém sabe ao certo porque é que o João vivia sozinho no cimo daquela árvore. Há quem diga que era órfão, há quem diga que não. Há quem diga que era filho do alfaiate, há quem diga que isso é disparate. Há quem diga que era selvagem, há quem diga que se perdeu numa viagem. Ninguém sabe.

O que todos sabiam é que o João era um miúdo feliz e que todos gostavam dele. Quando os restantes habitantes do vale se cruzavam com ele eram sempre brindados por um enorme sorriso e muitos abraços. Mesmo quando passava a correr (o que era muito frequente), o João parava sempre para cumprimentar convenientemente toda a gente.

O que poucos sabiam é que, na verdade, o João não vivia sozinho. Ou melhor, não vivia com ninguém, mas estava sempre acompanhado.

Baralhados? Bom, eu explico.

Para o João, toda a floresta era sua companheira. Quando era muito pequenino, enquanto as restantes crianças do vale aprendiam a falar português, o João aprendia a falar arvorês, riachês e passarês. Enquanto as restantes crianças do vale aprendiam a ler e a escrever, o João aprendia a ouvir e a falar a música da floresta.

O seu maior companheiro era precisamente o carvalho onde tinha construído a cabana. Os dois costumavam conversar durante horas, ao longo das quais o João contava sobre as suas aventuras do dia e sobre as novas descobertas que ia fazendo. Em contrapartida, o carvalho falava-lhe sobre tudo o que tinha testemunhado ao longo de mais de 1000 anos de vida.

Certo dia, alguns rapazes e raparigas da aldeia mais próxima dirigiram-se ao carvalho, à procura do João. Nos seus rostos, traziam a expressão habitualmente reservada ao portadores de más notícias: A alguns quilómetros a sul dali, uma nova barragem tinha acabado de ser construída e todos habitantes deveriam evacuar o vale. Dentro de algum tempo, toda a floresta estaria submersa...

Ao longo das semanas que se seguiram, o João assistiu à partida de toda a gente, fazendo questão de se despedir convenientemente dos seus amigos mais próximos. Como sempre, com um grande sorriso e muitos abraços. Muitos insistiram com ele para que os acompanhasse. Alguns até se ofereceram para lhe dar casa, comida e amizade eterna. O João aceitou de bom grado as ofertas de amizade, mas recusou tudo o resto.

Enquanto as águas subiam, centímetro a centímetro, dia após dia, o João manteve-se na sua cabana. Do cimo do carvalho milenar assistiu ao êxodo frenético dos animais da floresta, relutantemente à procura de terras mais altas e secas.

Enquanto as águas subiam, centímetro a centímetro, dia após dia, o João assistiu ao desaparecimento gradual das plantas do vale. Os arbustos, as árvores pequenas, as árvores médias, as árvores grandes, as árvores maiores. Gradualmente, o tronco do carvalho encolhia também, como se as águas engolissem um ano de história do vale por cada centímetro de cortiça.

Ano após ano, centímetro a centímetro, dia após dia.

Quando as margens do riacho deixaram de pertencer a um riacho, mas sim a um lago, quando a água invadiu finalmente o chão da cabana do João, o rapaz abraçou com todas as suas forças o tronco principal do velho carvalho e disse baixinho, como se segredasse a um ouvido invisível:

"Obrigado, pai".

E desapareceu na casca da árvore.

Agora, vários anos depois de o vale ter sido submerso nas águas da barragem, há quem repare por vezes no que parece ser uma floresta no fundo do lago. A maioria não liga, julgando tratar-se de um mero reflexo na água. Mas os mais atentos irão reparar que não existe nenhuma árvore nas suas margens.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Inês submersa, nº2

Como vos disse há pouco, este fim-de-semana capturei uma Inês Submersa na piscina da minha tia Ana.


A Inês Submersa é uma espécie muitíssimo rara (tão rara, aliás, que só há registo da existência de um espécimen em toda a história da humanidade) e, consequentemente, o seu valor é incalculável.

Estava eu calmamente à beira da água, a chapinhar os pés e a pensar no sentido da vida, quando... FLASH!! Um imenso clarão iluminou toda a piscina, tão intenso que, por momentos, tudo à minha volta ficou branco.

À medida que recuperava a visão, comecei a aperceber-me de algo que se movia na água, junto aos meus pés. Convencido de que estava a alucinar (resultado evidente do consumo excessivo das receitas deliciosas da minha tia), mantive-me mudo e imóvel (provavelmente de boca aberta e olhos esbugalhados) enquanto aquele ser maravilhoso se deslocava na água como uma sereia.

A minha pose heróica de estátua embasbacada só se desfez quando a Inês Submersa me tocou no pé e disse, com um sorriso doce:

- Blub. Blugublug, blb...

Claro. Estando ela debaixo de água e eu à superfície, a comunicação não era fácil. Portanto, enfiei a cabeça dentro de água e disse-lhe:

- Nhlub prblub nlub... - (Ou seja, "não percebi nada...")

Pelo ar de indagação desenhado na cara da Inês Submersa, percebi rapidamente que a minha mensagem também não tinha passado.

Mas eu não iria aceitar a derrota. Levantei-me num pulo, corri até à praia mais próxima e pedi a um caranguejo eremita que por lá passava se me emprestava o seu búzio. A negociação não foi fácil, mas acabei por conseguir trocar o empréstimo do búzio por uma maratona de documentários sobre a vida marinha em minha casa.

- Sabes, o meu primo é estrela de documentários, mas nunca o consigo ver porque a TV cabo não abrange a minha área de residência. - Explicou o caranguejo.

- Mas... a tua casa é portátil. Podes ir com ela para onde quiseres, não é?

- Nã, nã. Esta é só a minha casa de férias. Achas que eu ia andar o ano todo com a casa às costas? Nã, nã. Tenho mais que fazer, pá!

Munido de um búzio, corri de volta para a piscina onde a Inês Submersa ainda me esperava. Ajoelhei-me à beira da água, segredei algumas palavras para dentro do búzio e coloquei-o na água. A Inês Submersa encostou-o ao ouvido, fez uma pausa e olhou para mim sorridente antes de segregar também qualquer coisa para dentro do búzio.

Retirei o búzio das mãos dela e pressionei-o firmemente contra o meu ouvido direito, com medo de perder alguma palavra.

- Amor? - Disse a voz dentro do búzio - Estás a sonhar acordado outra vez?

- Não sei.

FIM

P.S. -  Porque gosto muito das duas versões, aqui fica a foto original. Na versão a preto e branco usei um filtro azul para fazer o efeito que podem ver em cima.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Leitura nas nuvens

Quando estou a ler, o resto do mundo desaparece.


Se não estiver a caminho da inconsciência causada pelo cansaço ou pelo sono, basta-me ler uma ou duas linhas e puf! Deixo de ser "Manel, o tipo a ler um livro" e passo a ser "Manel, o observador invisível de uma história que não é a dele".

Por vezes, fico de tal forma imerso nas letras que me esqueço de coisas elementares... como a lei da gravidade, por exemplo. Sem dar por isso, acabo muitas vezes por descolar-me do chão e flutuar, à deriva pelo espaço.

O problema, como deverão calcular, é quando interrompo a leitura.

"Ena. Este livro é mesmo bom. Até parece que estou a voar", penso eu imediatamente antes de perceber que estou mesmo. "Mas, que...?", este último meio-pensamento é rapidamente seguido pela inevitável vocalização da expressão "AAAAAAAAAAAHHHHH!!!" e pela reverberação do som "BADUUUM!!".

Felizmente, quando me lembro da lei da gravidade, ainda demoro um pouco até me lembrar de que não é suposto ficarmos inteiros quando caímos do céu. Poderia ser pior, portanto. Como nas vezes em que me esqueço da teoria da força nuclear fraca e, sem dar por isso, desintegro-me e fico espalhado pelos quatro cantos do universo...

Nessas vezes, demoro sempre um pouco mais a voltar à Terra.

(Na foto podem ver a contracapa de "The Men Who Stare at Goats", de Jon Ronson.)


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Manel e a conspiração dos peixes, 2ª parte


Como vos tinha dito ontem, estive na Biblioteca Esquecida dos Assuntos Submersos à procura de uma explicação para a conspiração dos peixes.

Na recepção falei com o Sr. Eliseu, bibliotecário extraordinário, e expliquei-lhe a minha situação.

- Boa tarde Sr. Eliseu. Como está? Os caranguejos voadores continuam a dar-lhe problemas?

- Hrm. Bah. - Resmungou o ancião, antes de desencostar o nariz do livro de registos - Que praga, meu jovem. Demorei quase dois anos para conseguir livrar-me das Cnidaria Scyphozoa Cantanti e agora tenho as prateleiras cheias destes Callinectes Sapidus Volitans que só querem saber de livros sobre "pensamento lateral".

- Realmente... Alguma coisa que eu possa fazer?

- Não, não. Hrm. Isto há de se resolver. - Respondeu com um ar sereno, antes de se levantar bruscamente, dar um valente murro na mesa e gritar com todo o poder dos seus pulmões - SEUS MARGINAIS!

Durante alguns segundos o Sr. Eliseu ficou ali, parado como uma estátua, de punho erguido aos céus e uma expressão de fúria no rosto, cujas rugas despertavam memórias de um o mar revolto numa noite de tempestade.

- Hrm. Mas diga lá, meu jovem. O que trás por cá? - A fúria desapareceu tão rapidamente quanto apareceu.

- Bom. Sabe. Acho que existe uma conspiração de peixes contra mim.

- Ah, sim? E porque é que diz isso? 

- Porque, ao contrário das outras pessoas, nunca consigo comer peixe sem cravar espinhas nas gengivas. A conclusão é irrefutável.

- Hrm. Acho que já li qualquer coisa sobre isso... Só um momento.

Num piscar de olhos, o Sr. Eliseu deslizou como uma enguia entre uma parede de estantes e o que parecia ser um enorme ídolo pertencente a uma qualquer civilização esquecida.

Enquanto esperava, distraí-me a observar o que faziam os restantes clientes da biblioteca.

Junto à proa de um colossal navio onde se lia o nome "Argo", o deus assírio-babilónico Dagon e o Adamastor riam-se a bandeiras despregadas enquanto trocavam excertos de H.P. Lovecraft e Camões. Um pouco mais perto, dentro de uma garrafa de rum poisada na terceira prateleira de uma estante feita de coral, o Neils Olgerson contava histórias da sua maravilhosa aventura a um liliputiano gordo e claramente cheio de sono.

- Aqui está, meu jovem. Hrm. - Disse o Sr. Eliseu, enquanto me entregava cinco volumes escritos numa língua estranha.

- Muito obrigado. Mas eu não ser ler esta...

- Balquinaquês.

- Isso. Não sei ler balquinaquês.

- Não se preocupe. Hrm. Aqui está um dicionário Balquinaquês-Português.

Munido de toda a informação necessária, entreguei-me à árdua tarefa de decifrar os livros que me foram entregues. Naturalmente, comecei pelos títulos, não só porque estava curioso sobre a identidade daqueles tomos ricos em conhecimento, mas também porque sou preguiçoso e só tinham uma palavra cada um.

Consultando o dicionário, decifrei rapidamente o primeiro título:

"aprende"

O segundo:

"a"

O terceiro:

"usar"

O quarto:

"os"

E finalmente o quinto:

"talheres".

FIM

terça-feira, 31 de julho de 2012

Manel e a conspiração dos peixes, 1ª parte


Ontem comi carapaus ao jantar e, como é hábito, trinquei e cravei nas gengivas uma dose considerável de espinhas. Por muito que esgravate o peixe antes de meter uma garfada à boca, não há maneira de me livrar daquelas navalhas de esqueleto marinho perfeitamente camufladas no meio da carninha suculenta.

No entanto, farto-me de ver outras pessoas a comer peixe sem se queixarem. Passam com a faca aqui (zip), passam com a faca ali (zup), afastam as espinhas dorsais (zup-tic), separam metade do peixe num movimento único e fluído (zip-plec) e procedem a ingerir o dito cujo com enormes garfadas absolutamente livres de espinhas (gulp, naturalmente) . Eu, por outro lado, acabo sempre em batalhas dignas de um documentário da National Geographic, a debater-me com autênticas adagas que tentam chegar ao meu cérebro através do céu da boca.

Parece-me, portanto, que existe uma conspiração contra mim. Os peixes estão decididos a tramar-me, mesmo depois de mortos!

Ao chegar a esta conclusão cuja veracidade é evidente e inabalável, decidi pesquisar as razões que levaram a tão maquiavélico plano. Para isso, desloquei-me à Biblioteca Esquecida dos Assuntos Submersos (que só é acessível através da ponte de raios de sol que aparece em Lisboa ao final do dia) e pedi ao Sr. Eliseu, bibliotecário extraordinário, toda a informação que tivesse sobre peixes e espinhas.

A Biblioteca Esquecida dos Assuntos Submersos é um lugar vasto onde estão arquivados todos os segredos esquecidos nas profundezas dos oceanos. É lá que estão guardados os ossos do primeiro Kraken e os restos ferrugentos de vários navios desaparecidos no Triângulo das Bermudas. É lá que estão os pergaminhos da biblioteca da Atlântida e os escafandros do Nautilus. Nas minhas visitas aos corredores da biblioteca é frequente encontrar por lá muita gente curiosa, como o Tritão, que invariavelmente tenta convencer o Sr. Eliseu a não pagar multa por entregar livros em atraso, ou a ninfa Loreley, que insiste em cantar "I am a rock", de Simon e Garfunkel, (o que naturalmente não é muito bem visto pelo Sr. Eliseu e os restantes visitantes) enquanto lê livros sobre naufrágios nos rios da Alemanha.

Estou a dispersar.

Atendendo ao meu pedido, o Sr. Eliseu, bibliotecário extraordinário, trouxe-me vários volumes sobre o assunto desejado. Foi aí que descobri a verdade sobre a conspiração dos peixes...

Mas o resto da história fica para amanhã. Este texto já está muito longo e tenho mais que fazer.

Até amanhã.

(Nota, 1 de Agosto: Já podem ler a conclusão aqui.)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O homem que tinha uma história, mas não conseguia contá-la

Estive quase para deixar-vos apenas com uma foto e não escrever nada hoje.

Mas depois lembrei-me:

Era uma vez um homem que tinha uma história, mas não conseguia contá-la.

Já tinha tentado de várias maneiras, mas sempre que se esforçava por dizer ou escrever as palavras que a compunham, elas recusavam-se a sair da sua cabeça.

O homem que tinha uma história ficava horas sentado em frente ao ecrã do computador ou de lápis apoiado no caderno aberto sem conseguir escrever uma única palavra. Ao fim de alguns minutos a olhar para o cursor a piscar ou para o vácuo infinito de uma folha em branco, os seus olhos deixavam de focar e a sua mente ficava igualmente vazia.

- És feliz? - Perguntou um amigo a quem o homem tinha explicado o seu problema.

- Feliz? Sim, acho que sou. Porquê?

- Então? Nunca ouviste dizer que as pessoas felizes não têm histórias para contar? Se calhar o que precisas é de ser um bocadinho triste. Sabes, essa coisa da felicidade é muito sobrevalorizada.

- Bom, a verdade é que já me afeiçoei bastante à minha... - Respondeu o homem com alguma hesitação - Além disso, o problema é que eu tenho mesmo uma história para contar. Só que ela não sai cá para fora. É como se tivesse uma vozinha na minha cabeça a dizer "Nã, nã. Daqui não saio, daqui ninguém me tira".

- Hm... Então o caso é bicudo... Já experimentaste falar com ela?

- Com quem?

- Com a história.

- Falar com a hist...

- Exacto. Se tens vozes na cabeça, parece-me que o melhor é dialogares com elas. "Tudo é possível através do diálogo", já dizia a minha avó.

A ideia parecia absurda, mas que escolha tinha o homem que tinha uma história? Umas horas mais tarde, quando chegou a casa, sentou-se no sofá da sala durante um bocadinho e esperou um pouco até ganhar coragem para falar com a sua própria cabeça.

- Er... História? - Perguntou ao vazio entre paredes - Estás aí?

- Estou, estou. 'Qué que queres, pá? - Respondeu uma voz vinda de lado nenhum.

- Ah! Xiça!... - Gritou o homem, assustado por uma resposta que não esperava ouvir - Desta não estava à espera...

- Sim, sim. Vá, desembucha lá. Qué que foi?

- Bom... er... sabes... bem, queria... queria perguntar-te porque é que não te deixas ser contada.

- Oh. Porque não me apetece. Sei lá.... Olha, porque preferia ser um épico! Preferia ser um livro de quinhentas páginas, com batalhas espectaculares, um romance escaldante, actos imensamente heróicos e mortes trágicas capazes de fazer chorar o Darth Vader ou a Angela Merkel.

- Mas assim deixavas de ser tu. Se eu escrever um épico, já não te escrevo a ti.

- Pois, está bem. Mas porque é que não escreves como o Tolstoi? Ou o Tolkien? Ou até como a Marion Zimmer Bradley?

- Mais uma vez, porque se o fizesse já não estaria a escrever-te a ti. E agora não quero escrever outra história. Vá lá, há tantas histórias curtas maravilhosas. Olha, os "Contos dos Subúrbios" do Shaun Tan, por exemplo. Há poucas coisas melhores do que aquilo.

- Prontos, tá bem. Tens razão. Estava só a sentir-me um bocadinho insegura. Vamos lá então.

Depois desta conversa, o homem que tinha uma história para contar sentou-se à secretária e contou a história que tinha para contar. Era uma história pequena, com pouco menos de duas páginas, mas o homem que tinha contado uma história estava contente.


Muitas pessoas leram o que ele escreveu. Umas gostaram, outras nem por isso. Mas, para as pessoas que gostaram, a extensão diminuta da história era perfeita, porque assim era mais fácil contá-la a outras pessoas que por sua vez contavam a outras. E a outras. E a outras.

Vários anos mais tarde, um velhinho sentou-se nas escadas do jardim (como fazia todos os dias) para contar uma história aos miúdos que por lá passavam. Desta vez, escolheu uma história chamada "O homem que tinha uma história, mas não conseguia contá-la".

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O jardim secreto do Sr. Jacinto

O Sr. Jacinto era um homem triste e cinzento que vivia numa cidade triste e cinzenta.

Há já muitos anos que o último jardim daquela capital tinha sido destruído para dar espaço a um enorme centro comercial para o qual a população afluiu como formigas à caça de migalhas de bolo no final de uma festa de anos. Porque já não existiam árvores na cidade, este e as restantes centenas de centros comerciais da zona tinham de ser abastecidos com ar fresco importado de outras regiões do mundo. No entanto, diziam os especialistas, era tudo pelo bem da economia.

Para o Sr. Jacinto, nada disto fazia sentido e mantinha em sua casa uma sala repleta de vasos de plantas que tratava com carinho e admiração. Entre as flores, encontravam-se orquídeas, margaridas, celósias, astromeias, cravos e uma enorme estrelícia. Entre as árvores de pequeno porte havia  vários bonsai, uma nespereira, uma árvore de pomelo e um limoeiro. No seu pequeno jardim, Jacinto tinha também salsa, manjericão, tomate, cenouras e alface.

A existência do refúgio verdejante não era segredo para os seus vizinhos, mas não era visto com bons olhos:

- Quem acha ele que é? - Questionava o queixoso do rés-do-chão (tão queixoso que só podia viver em pisos térreos porque as escadas não aguentavam tanto queixume) - Andamos nós a trabalhar para o bem da economia e vem este tipo plantar as suas próprias melancias!

- De facto. A conduta indesejável do cavalheiro nosso propínquo é deveras ignóbil. - Respondia o pseudo-intelectual do 3º (tão pseudo que só lia clássicos com mais de 500 páginas e que tivessem sido escritos há mais de 200 anos) - O consumo de produtos produzidos em ambiente privado controlado não é propício ao trânsito quimérico de bens e valores que é imperativo para a prevalência de uma economia salutar. "O dinheiro é o único poder que não se discute", já dizia Alexandre Dumas.

- Err... Pois... Isso. E ainda por cima não faz o dinheiro circular! - Concluía o queixoso.

- Foi isso que eu disse.

- Ah foi?

- Foi.

- Ah.... Prontos.

E voltavam os dois para as suas vidas cinzentas, nos seus apartamentos cinzentos, num prédio cinzento da capital cinzenta.

Certo dia, a informação de que ainda existia um pouco de verde na cidade chegou aos directores de uma qualquer agência governamental de protecção do consumidor. Naturalmente, não tardou muito para que a casa do Sr. Jacinto fosse invadida por uma equipa de intervenção composta por 10 homens totalmente equipados e armados até aos dentes.

Em menos de nada, todas as plantas do Sr. Jacinto tinham voado pela janela da sala "pelo bem da saúde pública e no interesse do combate à economia paralela".

Deixado sozinho no rescaldo da invasão domiciliária, Jacinto olhava embasbacado para a parede onde antes estava a plantação vertical de tomate. Sem que tivessem dado por isso, a equipa de intervenção tinha revelado algo que ele nunca tinha visto antes.

Na parede desnudada estava agora uma pequena janela de caixilho branco.

E do outro lado, um enorme jardim de mil cores estendia-se até perder de vista.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Casimiro, caçador de monstros

Este é mais um dos segredos escondidos de Lisboa. Tal como a ponte de luz que aparece por breves momentos ao final do dia, este candeeiro-sombra que fotografei no Castelo de São Jorge também só é visível em momentos muito especiais.

Se o encontrarem, esperem um pouco e pode ser que vejam o fantasma de Casimiro Leão Guerreiro a aproximar-se, retirar um frasco de whisky do bolso da gabardina e beber um trago antes de revelar um revolver na mão direita e desaparecer.

Nascido entre séculos, no momento em que o relógio batia as 12 badaladas do início do dia 1 de Janeiro de 1900, Casimiro cresceu para se tornar um indivíduo extraordinário, capaz de feitos incríveis e protagonista das mais inacreditáveis aventuras. Poderia dizer-se que Casimiro era um detective, mas não um detective comum. Na verdade, era conhecido em Lisboa pelo nome apropriado de "Caçador de Monstros" pois a sua especialidade era precisamente encontrar, perseguir e aprisionar ou matar os seres demoníacos que infestavam os subterrâneos da cidade naquela altura.

Um dos clientes mais regulares de Casimiro era a Maçonaria Portuguesa, mais especificamente os representantes do Grande Oriente Lusitano. Certo dia, em Maio de 1931, Casimiro desvendou um plano dos maçons para terminar de vez com os demónios, monstros e aparições que assombravam a cidade. Um plano que o Grão-Mestre da Maçonaria apelidou de "a solução final".

No entanto, a grande solução iria terminar não só com os indesejados, mas também com toda a magia de Lisboa. Os corvos falantes, as pontes de luz, os navios espaciais, os golfinhos voadores, as árvores anciãs... todos iriam desaparecer. Para isso acontecer, era necessário que a população deixasse de acreditar na sua existência e, para isso, seria necessário que todos pensassem da mesma maneira.

...programação mental massiva...

Chocado com a descoberta deste plano maquiavélico, Casimiro dirigiu-se de imediato ao Grémio Lusitano, sede da organização maçónica, determinado a destruir os esquemas do Grão-Mestre. Ele sabia que provavelmente seria a derradeira noite em que poderia percorrer as ruas da cidade que tanto amava, mas a sua determinação era inexorável.

Casimiro bebeu um último trago de whisky, retirou o seu revolver do bolso e atravessou a entrada do Grémio Lusitano para nunca mais ser visto.

É quase certo que o detective morreu naquela noite e que os monstros desapareceram da cidade. Mas também é evidente que Casimiro conseguiu interferir de certa forma na "solução final".

É por isso que ainda hoje se vislumbram alguns vestígios de magia.

É por isso que por vezes se consegue ver o fantasma de Casimiro a a passear pelas ruas de Lisboa.

É por isso que a luz da nossa cidade continua diferente de todas as outras.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Aníbal, o micróbio

Há dois ou três dias atrás, estava eu tranquilamente a pensar na morte da bezerra quando, de repente, fui violentamente agredido por um espirro traiçoeiro. O vilão aproximou-se de mim na calada da tarde e atacou-me impiedosamente com uma gigantesca marreta.

Naturalmente, isso fez com que deixasse de pensar na morte da bezerra (que aliás já morreu tantas vezes na cabeça de tanta gente que já ninguém lhe liga nenhuma). Em vez disso, comecei a pensar sobre o que se passa dentro dos nossos narizes. E foi aí que me lembrei da história de Aníbal, o micróbio directório.

Aníbal era um micróbio que não tinha uma função muito bem definida na comunidade microbiótica em que vivia (no interior de um humano qualquer). Ele tinha no entanto amigos nos mais altos níveis da sociedade e, como tal, era igualmente considerado um micróbio de prestígio. Ora bem, como figura de prestígio que era, não tardou a que Aníbal fosse nomeado para uma posição equivalentemente prestigiante: a de Director do Nariz.

Aníbal queria ser um grande líder e pensou "para ser um grande líder é necessário ser respeitado; para se ser respeitado é necessário ser temido; para se ser temido é necessário criar dúvida e incerteza; e, acima de tudo, é necessário que ninguém perceba que o líder não faz ideia o que está a fazer". Seguindo esta lógica inquestionável, Aníbal tratou rapidamente de emitir as suas primeiras ordens através dos fiéis súbditos que ocupavam agora vários postos hierárquicos que criou especialmente para o servirem:

"Por decisão da administração e do Sr. Prof. Dr. Director do Nariz, Aníbal Micróbio, foi determinado que:

1 - A partir da próxima terça-feira, os funcionários da narina esquerda deverão fazer o pino sempre que o Exm.º Sr. Prof. Dr. Director entre no edifício, excepto às segundas-feiras à tarde;

2 - A partir da próxima terça-feira, os funcionário da narina direita deverão cantar o primeiro acto do Barbeiro de Sevilha todas as manhãs, mas apenas até ao distinto Sr. Prof. Dr. Director sair da casa de banho;

3 - A partir da próxima terça-feira, as Fossas Nasais passarão a chamar-se Poços Nasais. Porque sim.

4 - Na próxima terça-feira será feita uma intervenção no sentido de acolchoar as paredes das Narinas Esquerda e Direita para maior conforto dos convidados do ilustre Sr. Prof. Dr. Director."


Durante vários dias, os funcionários do nariz deram o seu melhor para corresponder às exigências do seu novo líder.

Mas um nariz é um nariz. E um nariz faz o que um nariz faz. A confusão causada pelas novas directrizes causaram comichão e, com um valente espirro,  Aníbal e os seus fiéis súbditos foram projectados para a imensidão branca e luminosa de um lenço de papel.

Fim.

P.S. - Sei que a imagem tem pouco ou nada a haver com a história de Aníbal,o micróbio. Mas como devem calcular não é fácil fotografar micróbios (são muito tímidos, os tipos). Tirei a foto esta manhã no Monte Estoril.

sábado, 23 de junho de 2012

O homem de metal e a mulher numa caixa de vidro


Esta é a história de Zeferino Xavier de Almeida, contra-almirante da Marinha Portuguesa e prolífico inventor do século XIX, vítima trágica dos segredos escondidos abaixo das ondas do mar.

Zeferino era um homem inteligente, dedicado às ciências e apaixonado pelo conhecimento. Mas era, ao mesmo tempo, um homem de acção que amava a vida no mar quase tanto quanto amava a sua mulher, Maria Helena. Na sua função de contra-almirante, era admirado pelos homens que o serviam e respeitado pelos seus superiores, não só pela sua perícia e coragem, mas também pela sua capacidade intelectual e hombridade.

Quando estava de licença, Zeferino gostava de levar Maria Helena a velejar. Abordavam o pequeno veleiro que tinham atracado no porto de Lisboa e partiam só os dois em longos passeios ao longo da costa. A vida corria bem ao contra-almirante e à sua esposa. Até que, certo dia, numa altura em que o clima estava especialmente calmo, algo se passou num passeio junto à costa do Estoril.

Zeferino foi encontrado numa praia, sozinho, ferido, quase afogado e com as roupas rasgadas. De Maria Helena, não havia sinal.

Ninguém percebia como teria sido possível terem naufragado num dia como aquele e o relato oferecido pelo oficial não satisfazia as autoridades que começavam a desconfiar de actividade criminosa. Mais concretamente de homicídio, levado a cabo por uma mente claramente perturbada: a de Zeferino.

Segundo o náufrago, o barco tinha sido atingido por algo de proporções colossais, um vulto na água que sacudiu a embarcação de forma violenta, fazendo Zeferino e Maria Helena cair no convés. Ao segundo embate, grandes pedaços do casco foram projectados no ar numa enorme coluna de água acompanhada por um cheiro fétido e nauseabundo. De imediato, o mar invadiu o interior da embarcação através do casco destruído, levando-a a inclinar-se perigosamente a bombordo.

O casal tentou manter-se agarrado ao convés e à vida, mas não havia nada a fazer. Em menos de nada, todo o navio estava submerso. Zeferino e Maria Helena sacudiam os pés freneticamente, não só para se manterem à tona de água, mas também numa tentativa inútil de afastar a criatura que eles sentiam a mover-se na escuridão das profundezas.

Naturalmente, ao ouvir este relato, os investigadores e os médicos estavam já convencidos de que o contra-almirante tinha perdido a razão. A sua mente fora certamente apoderada pela loucura. Mas a narrativa ainda não tinha terminado. Mesmo percebendo que a verdade era demasiado assustadora para que alguém acreditasse nela, Zeferino continuou a sua terrível descrição.

Combatendo o pânico, Zeferino e Maria Helena procuraram agarrar-se aos destroços que ainda boiavam à sua volta. No entanto, esse esforço foi em vão. De repente, tanto o oficial como a sua amada sentiram os seus pés a serem agarrados e foram sugados para o abismo.

Dentro de água, enquanto lutava para se libertar, Zeferino conseguiu ver que o que o agarrava era na verdade um "homem" sem pelo, com grandes olhos negros e uma boca assustadoramente larga, atrás da qual se adivinhava uma fileira de dentes afiados. A alguns metros de si, Maria Helena era também puxada por dois destes homens-peixe que a tentavam colocar dentro de uma estranha caixa de vidro.

Mais longe, viu ainda um enorme polvo a afastar-se e, atrás dele, algo que fez Zeferino gritar e perder todo o ar que tinha nos pulmões. Não era possível, mas ali estava. Entre as rochas no fundo do mar, brilhavam e cintilavam as luzes de uma enorme cidade submersa... e viva.

Sem oxigénio, Zeferino acabou por perder os sentidos e só voltou a recuperá-los quando já se encontrava no hospital.

Se por um lado as autoridades não acreditavam na história mirabolante do contra-almirante, por outro não tinham quaisquer provas para o condenar. Zeferino foi liberto e rapidamente afastado das suas funções de oficial.

Mas ele não queria saber da Marinha. Tudo o que lhe interessava agora era encontrar aquela cidade no fundo do mar e recuperar Maria Helena das garras dos homens-peixe.

Durante meses, fechou-se numa oficina que comprara junto ao Tejo e só de lá saiu quando a sua obra estava terminada. Todos lhe chamaram de louco, mas Zeferino não hesitou e lançou-se ao mar na sua mais recente invenção: um submarino com escafandro, devidamente equipado para fazer frente a qualquer monstro das profundezas.

Foi numa manhã ventosa que Zeferino se fez ao mar. Uma pequena multidão de curiosos assistiu à sua partida, observando a peculiar embarcação desaparecer gradualmente na espuma das ondas.

Nunca mais alguém o viu.

No entanto, ainda hoje surgem relatos de marinheiros que vêm estranhas luzes na água junto à costa do Estoril. Muitos desses marinheiros admitem também terem sido assombrados por incríveis sonhos sobre o fundo do mar. Sonhos sobre um homem em feroz batalha contra as hostes do abismo. Sonhos sobre um homem de metal e uma mulher numa caixa de vidro.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Deslocação matinal de um ser quântico

A esta distância não é perceptível, mas estas linhas de sombra são estradas de informação ultra-rápidas percorridas ininterruptamente por minúsculos seres quânticos (ora estão cá, ora não estão) sempre atarefados na suas deslocações trabalho/casa, casa/trabalho.

O Sr. Qlct' Ptrt, por exemplo, vê-se obrigado todos os dias a utilizar a via mais congestionada para chegar ao escritório, uma comuta que demora uns intermináveis 0,00000012 nanosegundos, mas que lhe permite apanhar a Corrente Telepática Oriental das 5h55m55s. Com essa injecção de velocidade adicional, o Sr. Qlct' Ptrt ainda chega a tempo de relaxar por uns momentos e apreciar a deslumbrante vista que só é possível obter às 6h00 em ponto a partir da 13ª onda do primeiro raio de luz reflectido no 52º parafuso da segunda torre da Ponte 25 de Abril.

(Esta é uma foto da Escultura Habitável instalada no Jardim das Oliveiras do CCB, em Lisboa)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Auto-retrato na sombra, nº4 (ou "Como quase perdi a sombra")


Hoje quase perdi a minha sombra.

Esta manhã, cheguei ao Jardim das Oliveiras, descalcei os sapatos, guardei as meias dentro dos respectivos sapatos (meia direita no sapato direito, meia esquerda no sapato esquerdo) e plantei os meus pés na relva. Estava eu tranquilamente a apreciar a frescura das pequenas folhas entre os dedos, quando, de repente, tive a sensação de estar a ser observado.

Olhei à minha volta, mas não havia vivalma no jardim. Os únicos olhos visíveis nas proximidades eram os das gaivotas que sobrevoavam o CCB e os das estátuas do Padrão dos Descobrimentos, que estão sempre virados para o rio.

De qualquer forma, não parecia ser aquela sensação que os heróis dos filmes policiais têm quando estão a ser seguidos na rua (vocês sabem qual é: "I think we're beeing followed. Let's shoot the bastard!"). O que estava a sentir era algo mais amplo do que um par de olhos fixados em mim. Era algo que parecia vir de todos os lados e especialmente... de baixo.

De súbito, a relva por baixo dos meus pés começou a aquecer. Primeiro era um calor suave, agradável, mas a temperatura continuou a subir, a subir, a subir e rapidamente parecia que estava na praia a pisar a areia aquecida pelo sol.

Enquanto saltitava no relvado ("ui, ai, ih, ah, ui ui ui ui!") numa tentativa de evitar queimaduras nas plantas dos pés, não me apercebi que a minha sombra tinha ficado para trás. Só quando já estava em aparente segurança pendurado no ramo de uma oliveira é que fiquei com a sensação de me ter esquecido de qualquer coisa ("Terão sido as chaves? Ou o telemóvel? Não, tenho tudo nos bolsos...").

Alguns metros mais atrás, a minha sombra estava presa no que parecia ser uma teia de sombras projectadas por coisa nenhuma. O chão deformava-se em consonância com a teia em resposta aos movimentos aprisionados da minha sombra. Mais à direita, em direcção a esta cena, movia-se uma silhueta de forma indefinida que emitia um som arrepiante, como ramos de uma árvore morta a raspar nas telhas de uma casa abandonada.

Saltei da árvore para o imenso verde escaldante, num movimento digno de um Ninja, e corri em direcção àquela estranha rede de sombras. Como seria de esperar, o meu momento de ninjísse foi rapidamente compensado por um de trapalhice (também conhecida por Manelíce) e estatelei-me ao comprido. Ainda a cuspir relva, voltei a levantar-me entre tropeções e atirei-me para o limiar da teia, numa tentativa de agarrar os pés da minha sombra que esperneava desesperadamente.

A silhueta tenebrosa aproximava-se. Os meus dedos quase conseguiam alcançar a minha sombra, mas a teia tornava os meus braços pesados e incapazes de completar a distância que nos separava. O som arrepiante cada vez mais próximo, mais próximo, mais próximo...

"Só mais um bocadiiiiiinhoooo", gritei enquanto esticava todo o meu corpo mais alguns milímetros.

Nesse derradeiro esforço consegui finalmente tocar-lhe, precisamente no momento em que uma enorme nuvem se atravessou entre o sol e solo. Sem luz, todas as sombras se dissiparam. A minha, a da teia e a silhueta sumiram-se e o silêncio voltou ao jardim.

Quando uma mão cheia de raios de sol voltou a tocar a pele da minha cara, tudo estava como dantes. A relva era fresca. O som era calmo, apenas interrompido pelo barulho dos comboios a passar ali perto. Dos meus pés continuava uma projecção negra de mim próprio, muda e feita só de contornos. Mas agora, na escuridão dessa cópia bidimensional, parecia-me vislumbrar algo escondido, como se houvesse uma fresta microscópica nas fronteiras da minha sombra.



segunda-feira, 18 de junho de 2012

Conversa entre espelhos

Estava um espelho num café a olhar para outro espelho. O outro espelho, sendo ele um espelho também, olhava de volta para o primeiro espelho.

Diz o segundo espelho, "ouve lá, ó espelho! Já me estás a mexer com os nervos. Pára de me imitar!"

(Esta foto foi tirada na Confeitaria Nacional, na Praça da Figueira, em Lisboa)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Entardecer em Lisboa (de bicicleta), nº7

Pouca gente sabe isto, mas existem alguns sítios em Lisboa em que é possível apanhar um ponte de raios de sol. Tem de ser a uma hora muito específica e o local varia conforme a época do ano, o que torna muito difícil encontrá-la.

O fenómeno dá-se no segundo exacto entre o momento em que ainda se vê uma linha de sol no horizonte e o momento em que já não a vemos. É nesse derradeiro instante do dia que podemos pisar o feixe de luz que se estende à nossa frente (se estivermos no local certo e na orientação certa) e deixar-nos levar na ponte de luz. Por ser um momento tão fugaz, a maioria das pessoas não se apercebe quando ela aparece e desaparece. Basta um piscar de olhos de distracção (a pensar em trabalho, dinheiro ou qualquer outro buraco negro da adultísse) e... puf!

...escapou-se.

Se, pelo contrário, concentrarmos toda a nossa atenção no evento então o efeito sonoro é mais parecido com "zooooooooom"! Primeiro partimos em voo a uma velocidade vertiginosa, tão estonteante que a paisagem se transforma num borrão de linhas coloridas. Mas à medida que a viagem estabiliza, começamos a abrandar e a perceber que afinal a ponte é feita de várias cores que seguem por caminhos diferentes.

A partir daí, só nos resta escolher um caminho e ver onde nos leva.

Recentemente, descobri que é mais fácil apanhar a ponte se for de bicicleta.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Last one standing

O dono virou-se para o cão e disse: "Deita!"

Estas cadeiras não perceberam que não era com elas e atiraram-se prontamente para o chão.

Mas uma delas ficou de pé e as outras perguntaram-lhe: "Porque é que não te deitaste quando o dono mandou?"

E a cadeira que ficou de pé respondeu: "Perdão? Desculpe, tem de falar mais alto. Sou surda de um ouvido".

(Tenho a certeza de que há uma lição de moral qualquer escondida nesta história, mas ainda não descobri qual é...)

sábado, 9 de junho de 2012

Quebra correntes (ou "Otelo, o Super-Cão")

Podia ser um gato, mas não é. O pequeno animal nesta foto é um cão (chamado Otelo, em referência à peça de Shakespeare). Bom, dizer que é um mero "cão" é muito injusto, porque na verdade o Otelo é o Super-Cão!

Apesar do seu tamanho diminuto, o Otelo é capaz de quebrar as mais fortes correntes, saltar os muros mais altos e de levar a cabo as mais espantosas façanhas. Por exemplo, o último buraco que fez para esconder ossos era tão grande que chegou para acondicionar um Tiranossauro (inteiro), a roda de um autocarro (que ele tinha seguido nessa mesma manhã), a banca de jornais do Sr. Joaquim (o dono pediu-lhe para apanhar o jornal, mas esqueceu-se de dizer que estava em cima da cómoda), um frigorífico (a funcionar), um gerador (para alimentar o frigorífico), um sofá, uma dúzia de bolas de tipos variados e um patinho de borracha daqueles que apita quando o apertam.

As proezas do Otelo, o Super-Cão, são tantas e tão surpreendentes que seriam necessários vários volumes literários ou mega-produções de Hollywood para lhes fazer justiça. Mas este herói de pequena estatura prefere manter-se longe dos holofotes, não só porque gosta de privacidade, mas também porque no mundo canino um cão misterioso tem mais sucesso com as miúdas do que um cão famoso.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Auto-retrato numa bolha, nº2 (ou "O homem que tinha uma cabeça enorme")

Era uma vez um homem que tinha uma cabeça enorme.

Para este cavalheiro macrocéfalo (sim, qualquer senhora do bairro confirmaria que era um "verdadeiro cavalheiro") um dia de trabalho era uma canseira (ainda mais do que para todas as outras pessoas, quero eu dizer). O pescoço do comum dos mortais não está preparado para aguentar tremendo peso durante tanto tempo e o Homem que Tinha uma Cabeça Enorme (daqui em diante referido como HoQTuCE) tinha a frequente necessidade de fazer pausas, comunicando aos colegas que "já volto. Vou só descansar a cabeça".

Ao longo dos anos, o HoQTuCE foi tentando vários métodos para reduzir o esforço necessário para suportar o seu crânio de proporções gigantescas: Primeiro experimentou colocar varas entaladas entre os ombros e as orelhas, mas rapidamente percebeu que não funcionava porque, além de incómodo, este sistema era altamente falível. As varas caíam sempre que alguém lhe fazia uma pergunta que implicasse acenar com a cabeça e isso resultava invariavelmente numa valente cabeçada. Entre esta e várias outras tentativas, o HoQTuCE chegou mesmo a experimentar inalar hélio para fazer a cabeça flutuar, mas isso só fez com que ficasse com a voz muito aguda e com que durante algumas semanas passasse a ser conhecido como "o agudo cabeçudo".

Mas o HoQTuCE não era senhor para desistir. Depois de muito trabalho e dedicação conseguiu convencer/chantagear o Presidente dos EUA e o director da NASA para que voltassem a activar (secretamente) o programa lunar e tornou-se o primeiro macrocéfalo a viajar no espaço.

Actualmente, o HoQTuCE vive tranquilamente numa base secreta na Lua onde passa os dias a ler e a ver filmes mudos com os seus cinco gatos (também eles os primeiros felinos astronautas).